domingo, maio 17, 2009

Transtorno Bipolar e substancias psicoativas

A porcentagem de alcoolismo em pessoas com TBH é maior se comparada com a população em geral. Esse elevado número fez os pesquisadores começarem dar mais atenção ao problema. O uso de drogas, "leves ou pesadas", é outra preocupação também, pois tanto o álcool quanto as drogas são substancias psicoativas.
Quando ouvimos dessa forma: "substancia psicoativa" ou "a influência das substancias psicoativas", isso cai como um alento para nós, bipolares, que só tomamos uma cervejinha ou um copo de vinho ou ainda fumamos aquele "baseado" só pra relaxar.
Notei que um dos maiores problemas é que os fatos chegam aos médicos somente depois que os sintomas dessa dependência se tornam evidentes. Mas aí, o que já era difícil, fica mais complicado ainda.
Na sequencia, trechos da publicação feita, sobre esse assunto, na Revista de Psiquiatria Clínica:

"Tal associação é capaz de alterar a expressão, o curso e o prognóstico de ambas as patologias (Levin e Hennesy, 2004; Krishnan, 2005), mesmo quando o consumo de álcool e/ou drogas é considerado de baixo risco ou moderado (Os et al., 2002; Shrier et al., 2003)". [1]

"Os transtornos relacionados ao consumo de substâncias psicoativas estão entre as patologias psiquiátricas mais comuns. Em um estudo realizado em três capitais brasileiras (Brasília, São Paulo e Porto Alegre) no início dos anos noventa, o uso indevido de álcool foi detectado em quase 10% da população, e mais da metade desta estava desprovida de tratamento (Almeida-Filho et al., 1992). O I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas no Brasil (2001) (Carlini et al., 2001) detectou que cerca de dois terços da população já consumiu álcool pelo menos uma vez na vida e outros 10% são dependentes da substância. Quanto ao uso de drogas ilícitas e prescritas, quase um quinto dos brasileiros o fez. Entre estudantes do ensino fundamental e médio, o consumo de álcool atinge 70% deles, enquanto o de outras substâncias, 25% (Galduróz et al., 1997)". [1]

"O transtorno bipolar é a patologia do eixo I mais associada ao uso indevido de substâncias psicoativas. Os índices de comorbidade com o uso indevido de álcool atingem 60% a 85% desta população ao longo da vida (Regier et al., 1990; Vieta et al., 2001), enquanto o consumo de outras substâncias psicoativas (excluído o tabaco), de 20% a 45% (Strakowski e DelBello 2000; Krishnan, 2005)". [1]

"...entre os pacientes com problemas relacionados ao uso de álcool e drogas, um quarto apresenta algum transtorno do humor associado (Hasin e Nunes, 1998). Nos serviços especializados, a prevalência de dependentes químicos com depressão associada pode atingir 50% e com transtorno bipolar, de 20% a 30% (Grant, 1997; Hersh e Modesto-Lowe, 1998). Esses achados foram corroborados no Brasil por Cividanes (2001), que encontrou uma porcentagem de 22,4% de transtornos relacionados ao consumo de álcool entre 85 pacientes internados em dois hospitais psiquiátricos e um serviço ambulatorial. Por outro lado, Menezes e Ratto (2004) observaram psicóticos (incluindo o transtorno bipolar do humor) em diversos ambientes de tratamento em São Paulo e encontraram uma baixa porcentagem de uso nocivo (4,2%) e dependência (3,1%) de álcool. Quanto ao uso indevido de outras drogas, 8,3% dos participantes referiram algum consumo nos últimos 12 meses, sendo a maconha (5,2%), os benzodiazepínicos (4,1%) e a cocaína (2,6%), os mais consumidos." [1]

"Antecedentes familiares de uso indevido de álcool e drogas são muito comuns nos pacientes acometidos pela comorbidade em questão (Nolen et al., 2004). A prevalência é ainda maior quando, além do transtorno bipolar e do uso de substâncias psicoativas, um transtorno de conduta é diagnosticado (Biederman et al., 2000)."[1]

"Álcool

O uso indevido de álcool é a comorbidade mais associada ao transtorno bipolar do humor (Vieta et al., 2001), sendo essa condição até cinco vezes mais prevalente entre os pacientes bipolares do que na população geral (Kessler, 2004). O consumo de álcool entre pacientes bipolares aumenta o risco de crises (especialmente a depressão), internações e tentativas de suicídio (Cividanes, 2001). Salloum et al. (2002) conduziram um estudo com 256 pacientes em mania internados para tratamento. Os pacientes que também possuíam diagnóstico para uso nocivo/dependência de álcool apresentaram mais sintomas de mania, maior labilidade do humor, impulsividade e episódios de violência do que aqueles sem uso atual de álcool. Slama et al. (2004) estudaram 307 pacientes bipolares em tratamento ambulatorial e constataram que a presença de uso indevido de álcool aumentou o risco de suicídio da amostra.

Cocaína

O consumo de cocaína chega a acometer um terço dos pacientes bipolares, aumentando ainda mais quando o transtorno bipolar está associado a um transtorno de ansiedade (pânico, fobia, TOC) (Goldberg et al., 1999). A cocaína é utilizada mais comumente para manter ou potencializar o quadro de mania do que como “automedicação” dos sintomas depressivos (Crawford et al., 2003). A adesão é o principal problema dos usuários de cocaína (Goldberg et al., 1999; Crawford et al., 2003). Além disso, a associação entre o uso de cocaína e a ocorrência de problemas legais e transtornos de personalidade (Havassy e Arns, 1998) e a presença de uso concomitante de álcool e crack (Gossop et al., 2003) comprometem, per se, a evolução do curso da doença e do tratamento, representando mais um desafio para o especialista.

Maconha

Os efeitos deletérios da maconha estão relacionados à dose utilizada, à precocidade do início do consumo, às características de personalidade do usuário e à sua vulnerabilidade para complicações psiquiátricas (Os et al., 2002; Henquet et al., 2005). A relação entre o consumo de maconha e o desenvolvimento de depressão maior foi documentada por alguns estudos. Bovasso (2001) entrevistou, 15 anos depois, 1.920 indivíduos que haviam participado, em 1980, do Epidemiological Catchment Area (ECA), na cidade de Baltimore. Entre os usuários de maconha sem diagnóstico inicial de depressão maior, o risco de aparecimento de sintomas depressivos entre as entrevistas foi quatro vezes maior, quando comparado ao grupo de não-usuários e sem transtorno psiquiátrico. Lynskey et al. (2004) acompanharam 277 pares de gêmeos, sendo apenas um deles dependente de maconha, e 311 pares de gêmeos, tendo apenas um deles iniciado o consumo antes dos 17 anos. Apenas entre os gêmeos dizigóticos, a dependência de maconha aumentou o risco de depressão maior. O risco de tentativa de suicídio foi três vezes maior entre os dependentes, sejam esses mono ou dizigóticos. O início precoce do consumo esteve associado ao risco de suicídio para ambos os tipos de gêmeos, mas não ao desenvolvimento de depressão. Tais achados sugerem que essa comorbidade possui componentes genéticos e ambientais." [1]

[1] RIBEIRO, Marcelo et al. "Transtorno Bipolar do humo e o uso indevido de substancias psicoativas". Revista de Psiquiatria Clínica.
Disponível em: http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol32/s1/78.html


Mais alguns links interessantes:
http://www.polbr.med.br/arquivo/bipolar.htm
http://www.drogas.org.br/portaldrogas/Artigo.asp?IdArtigo=211

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente, mto esclarecedor